Gestão pública
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Nova Reforma Tributária: o que está em jogo nos municípios

Marco Antonio Zanatta
Fundador e CEO da Aprova
A nova reforma tributária foi apresentada como a maior mudança no sistema de arrecadação das últimas décadas. O debate público gira em torno de siglas, percentuais, cronogramas e disputas federativas.
Mas, para quem está na ponta da gestão municipal, a pergunta relevante é outra: o que isso muda, de fato, na realidade da prefeitura?
Já a resposta é mais profunda do que parece. A reforma não começa na Constituição. Ela começa no cadastro da sua prefeitura.
Durante anos, muitos municípios enxergaram o ISS (Imposto Sobre Serviços) como o centro da arrecadação sobre serviços. A emissão da nota fiscal parecia o ponto final do processo.
Com o novo modelo, essa lógica se amplia. O IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que substituirá o ISS, será operado de forma nacional, com governança compartilhada e critérios de repartição baseados em dados estruturados.
E aqui está o ponto central: o município continuará sendo o produtor primário dessas informações.
Cada alvará concedido, cada obra aprovada, cada evento licenciado, cada retenção feita pela própria prefeitura gera dados que influenciam a arrecadação futura.
Se essas informações não forem organizadas, validadas e integradas, a cidade perde capacidade de capturar sua própria receita.
A reforma é nacional. A preparação é local.
A transição até 2033 pode dar a sensação de tempo disponível. Esse é um dos maiores riscos.
A organização cadastral, a integração de sistemas e a digitalização de fluxos não acontecem da noite para o dia. Exigem diagnóstico, alinhamento político, investimento e mudança cultural.
O novo modelo fortalece a tributação no destino. Isso significa que a arrecadação acompanhará o local onde o serviço é efetivamente consumido. Mas, para que isso funcione, o sistema nacional dependerá da precisão das informações fornecidas pelos municípios.
Se o cadastro imobiliário não reflete a realidade construída, a tributação da construção civil perde base.
Se o cadastro mobiliário estiver desatualizado, a identificação da atividade econômica fica comprometida.
Se a retenção na fonte não é controlada com rigor, o município já perde receita hoje — e continuará perdendo amanhã.
Não é alarmismo. É lógica sistêmica.
Um sistema nacional de arrecadação distribui recursos com base nos dados que recebe. Dados frágeis produzem repasses frágeis. Dados inconsistentes deslocam arrecadação para outras localidades.
A cidade que não organiza sua informação, na prática, subsidia a arrecadação de quem organiza.
Há outro aspecto relevante. A reforma também altera a dinâmica política da arrecadação.
Com o Comitê Gestor do IBS (CG-IBS), estados e municípios passam a compartilhar a governança do imposto. Isso traz equilíbrio federativo, mas também exige maturidade técnica.
Municípios que dominam seus próprios dados participam do debate com autoridade. Os que não dominam tornam-se dependentes.
A discussão deixa de ser apenas jurídica. Ela passa a ser estrutural.
Não estamos falando apenas de tecnologia. Estamos falando de gestão pública, de capacidade administrativa, de visão estratégica. O que sustenta a arrecadação não é a lei isoladamente, é o conjunto de processos que antecedem o fato gerador.
Quando um empreendedor solicita um alvará e encontra um fluxo claro, digital e integrado, a prefeitura não apenas facilita a vida do contribuinte. Ela produz informação qualificada.
Quando uma obra é aprovada e automaticamente atualiza o cadastro imobiliário, o município constrói memória fiscal. Quando a retenção na fonte conversa com o sistema de arrecadação, o controle deixa de ser manual e passa a ser sistêmico.
Esse é o novo jogo. A reforma tributária do consumo não elimina a responsabilidade municipal. Ao contrário. Ela a evidencia.
A arrecadação continuará nascendo na rotina administrativa, a diferença é que agora ela será processada dentro de uma infraestrutura nacional de dados.
É nesse ponto que muitos gestores precisam refletir:
A sua prefeitura sabe exatamente onde nascem as informações que impactam a arrecadação?
Esses dados são integrados ou estão espalhados em sistemas que não conversam entre si?
Existe rastreabilidade das alterações cadastrais?
Há histórico confiável?
Essas perguntas parecem técnicas. Na verdade, são estratégicas.
Municípios que já iniciaram um processo de transformação digital perceberam que integrar secretarias não é apenas uma questão de eficiência interna. É uma forma de proteger receita futura.
Quando Fazenda, Obras, Planejamento e Tecnologia trabalham com bases unificadas, o município reduz lacunas e fortalece sua posição no novo modelo federativo.
O improviso custa caro
A reforma cria um ambiente em que o improviso custa caro. Não será possível depender de planilhas paralelas, cadastros incompletos ou processos fragmentados.
O modelo de destino exige clareza sobre onde o serviço foi prestado e quem participou da operação. Isso passa por cadastro atualizado, integração com bases territoriais e capacidade de fornecer informações estruturadas quando solicitadas.
Prefeitos e secretários precisam compreender que a preparação para a reforma não é um projeto tributário. É um projeto de governança.
Organizar fluxos de abertura e alteração de empresas; revisar cadastro imobiliário; integrar licenciamento de obras ao sistema fiscal; estruturar a retenção na fonte; padronizar dados. Esses movimentos fortalecem a arrecadação atual e constroem resiliência para o futuro.
A boa notícia é que esse processo não depende da regulamentação final para começar. O diagnóstico pode ser feito agora. Aliás, quanto mais o município adia esse movimento, mais complexa se torna a transição.
No fim das contas, a discussão não é se a reforma é boa ou ruim. Ela é uma realidade constitucional. A reforma é nacional. A preparação continua sendo uma escolha local.

Marco Antonio Zanatta
Sou fundador e CEO da Aprova, govtech referência em gestão, automação e inteligência artificial aplicada a processos eletrônicos públicos. Há quase uma década acompanho de perto a transformação digital em dezenas de prefeituras brasileiras. Me siga para ver como estamos, agora com o apoio do Banco do Brasil, construindo soluções inovadoras para o setor público.

